quarta-feira, 4 de julho de 2012

"A Venezuela ingressou pela janela", diz Sergio Abreu, senador uruguaio

A suposta intervenção brasileira para o ingresso da Venezuela no Mercosul, aproveitando-se do vácuo deixado pela suspensão do Paraguai, conturbou o Uruguai. Da oposição, veio na terça-feira a convocação para o chanceler Luis Almagro se explicar no Congresso, feita pelo senador “blanco” Sergio Abreu.



Almagro, por meio de sua assessoria, informou a Zero Hora que não mais falará à imprensa e que confirma declaração feita à rádio El Espectador, segundo a qual é contra o ingresso da Venezuela. O vice-presidente, Danilo Astori, definiu a Venezuela no Mercosul como “agressão institucional” ao bloco.


Em meio a tudo isso, Sergio Abreu, que já foi chanceler e é especialista em Mercosul, adiantou a ZH: caso não seja convincente, Almagro perderá a credibilidade. Mais: qualificou Hugo Chávez como perigoso, por trazer para o bloco a “luta de classes” e o apoio a ditadores extrabloco.


Confira trechos da entrevista:


Zero Hora – O sr. acredita que a Venezuela entrou no Mercosul por pressão brasileira?


Sergio Abreu – O que sei é que há uma violação flagrante ao Tratado de Assunção (marco fundador do Mercosul). A Venezuela ingressou no Mercosul pela janela. O presidente uruguaio tinha uma posição e agora tem outra, e o chanceler está mais perto de uma consulta psicológica do que da casa presidencial. Antes de qualquer reunião internacional desse tipo, Brasil e Argentina conversam. Talvez a presidente argentina tenha dado uma ideia mais forte do que deveria ser feito com a Venezuela e se aceitou isso. Não é que houve pressão, é que o presidente (José) Mujica tem aqui seus problemas internos, tem muita gente que é mais chavista que Chávez no seu grupo de apoio. A ambiguidade de Mujica nos levou a não ter uma resposta ao entendimento bilateral entre dois presidentes. Isso não deveria ser aceitável.


ZH – Houve um erro do governo ao aceitar a suspensão do Paraguai e o ingresso da Venezuela?


Abreu – O problema é que o governo uruguaio não sabe o que quer. Creio que tratamos muito mal o Paraguai. Não houve golpe de Estado no Paraguai, houve um juízo político com resultado categórico, e o país não pôde se defender ao ser suspenso do Mercosul. Parece-me que o próprio Itamaraty tem uma visão diferente, não entendo o que houve com a presidente Dilma. Impuseram-se o delírio tropical do senhor Chávez e a esquizofrenia da presidente argentina, a mistura não é a mais adequada para o Mercosul.


ZH – Com a saída do Paraguai, o Uruguai vai ficar isolado no Mercosul?


Abreu – Não acredito no isolamento. O que está ocorrendo é que a Argentina adotou um sistema de substituição de importações ao velho estilo, e a Venezuela também é assim, com o uso do petróleo. O problema não é Uruguai ou Paraguai. O Mercosul não está tendo respeito pelas obrigações jurídicas internas. E agora temos um presidente, Hugo Chávez, que festeja seu ingresso dizendo que é uma vitória sobre a burguesia. Nunca conheci um processo de integração que proclama a luta de classes. Eu, que fui um dos impulsionadores e fundadores do Mercosul, não me reconheço mais no Mercosul. Não me reconheço no histrionismo venezuelano e na prepotência argentina. Sou órfão de pai e mãe em matéria de integração.


ZH – O sr. acha que o Uruguai deveria deixar o Mercosul?


Abreu – Não. Nós fazemos parte, até geograficamente. O que não podemos é estar em um clube, como se fosse o Grêmio ou o Internacional, em que se diga que esse ou aquele jogador não pode atuar. Estamos em uma esquizofrenia política muito forte, um clube de presidentes que têm posições ideológicas fora das outras instituições. Definem o que houve no Paraguai como um golpe de Estado, mas aceitam a Venezuela com seus limites às comunicações e aos direitos humanos em geral.


ZH – O que a oposição vai fazer em relação ao governo uruguaio?


Abreu – Para um país pequeno como o nosso, é perigoso entregar a segurança jurídica de um tratado, e é justamente o que entregamos sem resistências. Para nós, o direito é a forma de garantir a liberdade. A visão totalitária não está de acordo com a integração. Eu interpelei o chanceler para que dê explicações. Se as explicações não forem satisfatórias, é porque ele não merece nossa confiança.


ZH – Chávez apoia líderes polêmicos de fora da região, como Mahmoud Ahmadinejad, do Irã. O que isso significa para o Mercosul?


Abreu – Esse é um tema muito sério. O presidente Hugo Chávez é perigoso. Ele dá apoio também ao presidente do Sudão, acusado de genocídio internacional. É um perigo. Esse estilo não é a democracia que eu quero e respeito, não é a convivência que precisamos ter na região.
(ZH)




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É por estas e outras que cada vez mais eu admiro os uruguaios, por sua luta, sua história e sua democracia. Ao mesmo tempo, mais me enoja o que eu vejo no Brasil.


O senador Abreu disse tudo, e concordo inteiramente com ele.