segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Adeus Mercedes Sosa, "madre nuestra"

Mercedes Sosa tornou-se uma das principais referências da cultura argentina e latino-americana vindo da "distante" Província de Tucumán, localizada no noroeste do país, a mais de mil quilômetros de Buenos Aires.

No país que, proporcionalmente, recebeu o maior contingente de imigrantes europeus em todas as Américas, Mercedes Sosa destacou-se por cantar a cultura indígena e popular, muito presentes em sua província natal e em sua história familiar. No país das "loiras magras", Mercedes Sosa, com sua silhueta variante, mas sempre avantajada, era chamada carinhosamente de La Negra por seus traços indígenas, a pele morena e os cabelos negros lisos.

Com o apelido, Mercedes Sosa conseguiu inverter o sentido negativo que a palavra costuma ter na Argentina. O termo cabecita negra foi difundido por imigrantes europeus e pelas classes médias e altas de Buenos Aires ao se referirem pejorativamente aos migrantes do interior, muitos dos quais tinham origens indígenas.

La madre Mercedes nunca escondeu, também, a origem humilde. Certa vez declarou como sua família ficou sensibilizada ao receber da primeira-dama Evita Perón (1919-1952) dois pares de óculos, quando tinham pedido apenas um. No país onde muitos ainda se orgulhavam de sua "qualidade de vida", Mercedes já cantava e denunciava, na década de 1970, a pobreza, a opressão e a injustiça. Era uma presença incômoda para a ditadura instaurada em 1976. Em 1979, foi presa durante um show e exilada até 1982.

Na Europa, onde já tinha se apresentado, continuou a divulgar a cultura indígena tantas vezes perseguida pelos "antigos" colonizadores. Virou um dos símbolos do retorno à democracia em 1983. Apesar do avanço da "lógica de mercado" sobre a produção cultural argentina, principalmente durante a década de 1990, manteve-se conhecida como uma artista engajada social e politicamente. Criticou publicamente o governo neoliberal do presidente Carlos Menem (1989-1999). Se por um lado cantava, sim, para as classes médias e altas em apresentações de ingressos caros, por outro nunca deixou de cantar em eventos gratuitos e beneficentes.

O falecimento de La Negra Mercedes Sosa no domingo, dia 4, representa uma grande perda para a cultura argentina e latino-americana. Perda, pois continuava ativa, mesmo com 74 anos e a saúde debilitada. Neste ano lançou "Cantora", um CD duplo indicado ao "Grammy Latino". Mas sua obra permanecerá, certamente. Alguns argentinos costumam dizer que Carlos Gardel, o ícone do tango, canta melhor a cada dia, apesar de ter falecido em 1935. Mercedes Sosa será assim lembrada por todos os argentinos e latino-americanos que sonham com um continente mais desenvolvido, justo, plural e soberano.

A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, declarou luto oficial pela morte de Mercedes Sosa. A chefe de estado antecipou o retorno de uma viagem para assinar o decreto.

Milhares de fãs compareceram ao velório da cantora, no Congresso Nacional de Buenos Aires. Mercedes foi internada no dia 18 de setembro vítima de uma infecção hepática agravada por problemas cardiorrespiratórios.

Na quinta-feira (1), ela entrou em estado de coma e acabou morrendo no domingo.

Madre Mercedes é um ícone para os latinos americanos. É uma referência, diva e exemplo para mim.

Desde mui novo, guri, ouvia suas músicas pela casa, quando minha mãe colocava seus discos de vinil, e se ouvia canções (eternizadas, diga-se) como Alfonsina y el mar, Cosechero, entre muitas outras.

Posso dizer que cresci ouvindo Mercedes, que sempre "batia forte" em meus ouvidos e em meu coração.

Recebi a notícia de sua morte por minha irmã Fernanda, ontem, quando visitava ela e minha mãe em Gravataí/RS. Confesso que retornei a Santiago mui chateado.

Durante o trajeto, pela BR 287, entre uma música e outra, lembrava dos shows memoráveis que tenho em forma de DVD, e que volta e meia assisto. Aliás, muitos amigos "viram" ou "conheceram" Mercedes através desses dvds ou cds que tenho, e que apresento nas rodas de chimarrão ou nos jantares festivos.

Mercedes é eterna. E para uma guerreira, Tucumana mais ilustre da Argentina, viver na eternidade é o legado mais lógico para os grandes gênios, como ela.

Vá em paz, Negra.